Sorte ou Azar?

É muito comum escutar pessoas falando umas para outras sobre os acontecimentos de suas vidas, caracterizando cada um deles como sorte ou azar. Quem nunca ouviu expressões como: “estou passando por uma maré de azar; estou num atoleiro sem fim; a sorte bateu finalmente em minha porta; até que enfim a sorte fez as pazes comigo.” E nessa virada de ano, muito se recebeu desejos de amigos, como: “Muita sorte nesse 2020”…

Não será ilusão? As pessoas, geralmente, preferem atribuir ao azar, aos espíritos obsessores, a alguém, a Deus, a um mês do ano, ao gato preto, enfim a qualquer razão externa, ao ter que admitir que, quem atrai ou repele coisas boas ou más, são elas próprias, através de pensamentos e ações, enfim da sua própria energia que se sintonizará com acontecimentos ou pessoas com essa mesma energia que elas estão emanando.

O mais interessante, diz Caldart, minha convidada para esta reflexão, é que conhecemos muito pouco da nossa língua e sua construção, ou seja, desconhecemos sua etimologia, que se refere ao estudo da origem e da evolução das palavras até hoje. Essa falta de informação, resulta numa forma de interpretar as palavras e seus contextos distorcidamente, bem como permite influências externas, como por exemplo, pela religiosidade ou manipulação do poder, associadas à nossa preguiça mental e acomodação, fazendo com que sempre aceitemos o que já está pronto e não investiguemos como e porquê da maioria das situações, logo, preferimos crer imaturamente na SORTE e no AZAR.

Etimologia, também quer dizer “o que é verdadeiro ou a verdade”. Motivada a compreender melhor o significado original das palavras Azar e Sorte, Caldart realizou pesquisas que complementam:
• A Palavra AZAR vem do Árabe sahr, “flor”, pois uma das faces dos dados árabes tinha o desenho de uma florzinha, por isso o termo: Jogo de azar ou jogo de dados. Em Espanhol, essa palavra tem uma conotação diferente da nossa; quer dizer “acaso”, sem definir se é bom ou mau;
• A Palavra SORTE tem origem latina. Acredita-se que ela venha de sors, uma referência dos antigos romanos para as surpresas, boas ou ruins, que o destino ou o acaso reserva para o homem;
• Falando nisso, ACASO vem do Latim a casu, “por acaso”, onde casu quer dizer “possibilidade, acontecimento” e deriva de cadere, “cair”. Não é uma noção interessante, a de comparar o acaso a algo que “cai” na nossa frente?
• Segundo a mitologia, a palavra SORTE também se refere a uma divindade, a chamada filha de Saturno. Muitos entendem o conceito de sorte como sinônimo de destino, fatalidade, programação ou desígnio imposto por forças superiores;
• AFORTUNA vem do Latim fortuna, “boa sorte”, de fors, “possibilidade, força”. Inicialmente queria dizer apenas “boa sorte”, mas acabou ficando mais com o significado de “riqueza”, personificada como uma deusa, em Roma; daí a frase “a fortuna lhe sorriu”.
Analisando a etimologia acima mencionada, a mitologia que vibra em nosso inconsciente e a filosofia com base em todas essas palavras citadas, compreende-se que cada ser humano tem possibilidades infinitas de construir para si uma realidade de infelicidades/azar ou de felicidades/sorte. Tudo dependerá do que escolher alimentar em seu interior. E como diz Aristóteles, a “grande busca da humanidade é encontrar felicidade e isto o levará ao divino.” Caldart reforça sua opinião, que esta felicidade só pode ser alcançada através do servir e do amar, assim, tornando o indivíduo parte da criação e co-criador deste “estado de felicidade”, com consciência da sua singeleza e frugalidade.
O parapsicólogo e autor Richard Wiseman, em seu clássico livro “The Luck Factor” (O Fator Sorte) tentou explicar o fenômeno, mas nada conseguiu elucidar sobre as questões relacionadas à sorte e ao azar, transformando o seu livro em mais uma literatura de autoajuda.

Pode-se justificar que as pessoas pensam assim porque, uma vida feliz, pode exigir algumas mudanças drásticas em suas condutas, que nem sempre estão “dispostas” a realizar. Por exemplo: perdoar, superar as ambições, rever seu orgulho, dosar a vaidade, eliminar os vícios, combater impulsos agressivos, respeitar as diferenças, ajudar seu semelhante, entre outras…
Coisas desagradáveis e agradáveis, felizes e tristes, acontecem sempre, sem data determinada, pois fazem parte do processo natural da vida, como de ações e reações, de atrações e repúdios, enfim de muitos aprendizados.


Ao revisitar mais uma vez o pensamento de Aristóteles depara-se com a ideia de que a finalidade da vida humana é alcançar a felicidade, como já citado anteriormente. E ele explica a felicidade como forma de viver conforme a boa consciência, isto é, encontrar a felicidade nas coisas perenes, onde nem a sorte ou o azar podem causar ou destruir. Desta forma, conclui-se que ele reconhece a existência da sorte e do azar, entretanto, não como influenciadores de sentimentos humanos.

Não há mal em chamar algo de muito bom ou de muito ruim, de sorte ou azar, de karma, destino, livre-arbítrio, etc, desde que se tenha a consciência que tais acontecimentos sempre terão algum propósito na vida das pessoas, independente dos nomes que queiram dar. O sentido estará na intencionalidade que se usa tais expressões e esse sentido, cada um atribui, de forma individual, de acordo com seus sentimentos.

A vida não reserva “surpresas”, pois somos todos construtores de nós mesmos e, dependendo de como se está vivendo, de quais são os valores expressados nessa prática da vida, é possível fazer uma projeção do que poderá acontecer. As pessoas são as que fazem sua própria felicidade ou infelicidade. E aquela tal maré de azar, não existe, pois em verdade nem sorte nem azar existem, cada ser faz suas escolhas utilizando o livre arbítrio e assume as consequências, e recebe do universo, o que merece e pode receber, de acordo com o estágio de progresso moral em que se encontra, dentro de seu processo evolutivo.
Enquanto as pessoas buscarem fora de si esta felicidade e/ou estado de consciência, ou ainda como diz Depak Chopraa “Bem aventurança, ser feliz por ser e ser Luz.”, encontrarão muitos acasos que conforme seus interesses tomarão a forma de sorte ou azar. Até o dia que abraçados às suas escolhas e responsabilidades, com a cabeça erguida e peito aberto, encontrarão a liberdade de ser e viver em harmonia com todo o Universo e suas criaturas. Assim diz Caldart, eu gostaria que fosse… ACASO se faz presente sempre.

Essas reflexões são relevantes na medida em que os indivíduos se colocam em uma posição de vítimas, sentindo pena de si mesmas, sem se permitirem assumir suas responsabilidades por suas próprias escolhas. Esse processo requer amadurecimento, autoconhecimento e principalmente desejo de se melhorar como pessoas. Para uns, uma trajetória solitária, para outros representam mãos entrelaçadas num compasso de apoio e crescimento coletivo. A Psicoterapia pode ser uma forma de se chegar a essa compreensão com o devido apoio e acolhimento. Para uns, trata-se de um caminho difícil, para outros um caminho de altos e baixos, de pedras e flores, mas que resultará em equilíbrio e paz interior, conclui Richter.

Por Cristiane Richter – Psicóloga & Acupunturista e Jakeline S Caldart – Terapeuta Holística e Ministrante de Cursos e Palestras, ambas do Espaço Vida Centro Terapêutico

Referênciais Bibliográficos
STRATHEER, Paul. Aristóteles em 90 minutos. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1997.
POHLMANN, Eduardo Augusto. O problema da sorte moral. 2012. 98 f. Tese (Doutorado) – Curso de Pós-graduação em Filosofia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012. Disponível em: Lume UFRGS. Acesso em: 05 jan. 2020.
Richard Wiseman – Acesso em: 05 jan. 2020.
Filosofonet – Aristóteles: a felicidade como sabedoria prática
Site de Curiosidades – Qual a origem da palavra SORTE