Pai: uma figura importante ou necessária para o desenvolvimento das crianças?

Revisando as teorias clássicas da Psicologia, encontra-se um referencial imenso que aborda a importância das funções maternas, a necessidade da presença imprescindível da figura da mãe, seus deveres, os benefícios da relação maternal e a influência desta no desenvolvimento e na vida dos filhos.
O papel do pai na sociedade tem se transformado, sobretudo, nas últimas décadas. Esse fato já torna imperativo que se retome urgentemente e que se destaque também à importância das funções paternas. Esse artigo pretende apresentar com as diferentes abordagens, através de renomados autores, a expressão de princípios teóricos os quais caracterizam a função do pai no desenvolvimento dos filhos.
De fato, a “condição” de Pai evoluiu e continua mudando devido às transformações culturais, sociais e familiares, passando por muitas fases, tais como em que o pai era apenas o provedor financeiro da família para a que se observa atualmente, em que os jovens pais, assumem muitos cuidados com os filhos, participando da vida escolar, da saúde, da ludicidade, entre outros.
Historicamente, até ao fim do século passado, se via os pais, essencialmente numa função educadora e disciplinadora, frequentemente rígidos e repressivos.

Para Pupo, Pediatra especialista em desenvolvimento infantil e neo-natal, o ideal é que o pai participe dos cuidados com a criança desde o momento do nascimento: ele deve assistir ou dar banho, conversar com o médico do filho, cantar para ninar, trocar fraldas, alimentar… Ressalta que mesmo se o casal esteja separado, o pai deve participar ao máximo possível da rotina de seu filho, perguntando para aquela pessoa que fica mais tempo com a criança sobre seus gostos e suas preferências. Fazer parte da vida de um filho é fazer parte de seu mundo, é conhecê-lo. Isso é um direito do filho e do pai, um direito e um dever.
Segundo os princípios da Constelação Familiar Sistêmica, criada por Bert Hellinger, o pai oferece com sua presença, um convite com sua mão estendida para levar o filho para o mundo, apresentando oportunidades, complementando a coragem quando necessário, fazendo-os seguir sempre em frente. Os pais representam uma simbologia de autoridade, a qual promove a segurança e a disciplina, fatores importantes para a formação e o crescimento maturacional e da construção da identidade de seus filhos.
Os pressupostos da teoria psicanalítica, afirmam e fundamentam cientificamente o papel da figura paterna no desenvolvimento e na psiquê infantil. Um destes princípios é o papel estruturante do pai, a partir da vivência do complexo de Édipo (fase correspondida aos 3-4 anos). 
Muza (1998) pediatra, professor e autor de algumas obras sobre o desenvolvimento integral das crianças, afirma que o pai aparece como “o terceiro imprescindível” e chama assim esse pai que tem a função de fazer com que a criança elabore a perda da relação simbiótica inicial com a mãe, desprendendo-se dela. Este autor afirma, ainda, que o pai passa a representar um princípio de realidade e de ordem na família, e a criança sente que ela não é mais a única a compartilhar a atenção da mãe, isto é, o pai apresenta a existência de um mundo além do materno, contribuindo assim com a ampliação e maturação socioafetiva.
Dentro da teoria junguiana, Raissa Cavalcante, terapeuta transpessoal sustenta que o arquétipo do pai, vivenciado através da encarnação no “pai real”, é o símbolo que promove a estruturação psíquica da criança e lhe permite abrir-se para o horizonte de novas possibilidades, rompendo simbolicamente com a relação de dependência com a mãe.
Corneau, embasado pelas teorias lacanianas, reafirma que o pai é o primeiro “outro” que a criança encontra fora do ventre de sua mãe. A presença do pai é que poderá facilitar à criança a passagem do mundo da família para o da sociedade. Este mesmo autor defende a ideia que as crianças que sentem o pai próximo e presente sentem-se mais seguras em seus estudos, na escolha de uma profissão ou na tomada de iniciativas pessoais.
Ao pensarmos na ausência de um pai, cita-se Ronald Rohner, pesquisador da Universidade de Connecticut (EUA) afirmando que em meio século de pesquisas internacionais, nenhum outro tipo de experiência demonstrou um efeito tão forte e consistente sobre a personalidade e o desenvolvimento da personalidade, como a experiência da rejeição, especialmente pelos pais (como figura de apego) na infância. 
Voltando a citar Bert Hellinger, apresenta-se um exemplo trazido pela Constelação Familiar Sistêmica que ilustra e concretiza a função do pai.

“Para percebermos a diferença da forma como o pai e a mãe lidam com o filho basta imaginar um passeio com as crianças num parque, por exemplo. A mãe, preocupada e cuidadosa, a todo o tempo fala para o filho: ‘não suba na árvore’, ‘cuidado para não cair’, ‘não corra’… E sim, desta forma realiza com grande eficiência seu trabalho de cuidar dos filhos. O pai, ao contrário, ao chegar em um ambiente assim, verifica os possíveis riscos e se coloca de uma forma a preservar o filho longe deste lugar perigoso. Atento, o deixa livre para explorar.”

Bert afirma que essa liberdade é necessária para que o filho perceba o mundo, e posteriormente caminhe para a vida de forma completa.

Concordando com as pesquisas norte-americanas, Dr. Montgomery (1998) observou que crianças com ausência do pai biológico têm duas vezes mais probabilidade de repetir o ano escolar, e que as crianças que apresentam comportamento violento nas escolas têm 11 vezes mais chance de não conviver na companhia do pai biológico do que crianças que não têm comportamento violento. Essas crianças, principalmente meninos, evidenciam maiores dificuldades nas provas finais e uma média mais baixa de leitura.

O vazio promovido pela ausência do pai, segundo o pedagogo argentino Ferrari (2011), é formado pela noção das crianças de não serem amadas pelo genitor que está ausente. Essa ausência gera na criança um sentimento de desvalorização de si mesmas, além dos sentimentos de culpa, pois pensa que é um filho (a) mau, por acreditar haver provocado à separação e até por ter nascido. A criança sente-se má também por ter sido deixada por esse pai. O autor coloca que isso pode gerar reações variadas, desde tristeza e melancolia até agressividade e violência.

Para os médicos Eizirich e Bergmann e os psicólogos Gomes e Resende, está sendo evidenciadas as modificações na estrutura das famílias contemporâneas. Os efeitos negativos da ausência do pai e as repercussões decorrentes dessa ausência são observados tanto nos aspectos comportamentais, quanto nas vivências emocionais relacionadas ao complexo de Édipo, já citado como um pressuposto da teoria freudiana. Estes autores relacionam a ausência da figura paterna à produção de variadas expressões de conflitos, defesas e sentimentos de culpa nos filhos.

A Psicoterapia pode auxiliar os filhos no sentido de adaptarem-se as situações da sua vida, quando não contam com a presença paterna, a fim de minimizar as consequências dessa ausência, bem como a Psicologia poderá fazer-se presente no acompanhamento familiar e na construção de vínculos afetivos, quando essa aproximação “pai e filho” forem decretadas por uma ação legal, priorizando o estabelecimento destas relações de forma saudável, em acordo com os direitos e deveres de cada um dos envolvidos.

Faz-se necessário nesse artigo, também contemplar uma referência indispensável à cerca do aspecto jurídico. Sendo assim, ressalva-se o motivo da responsabilidade civil passar a fazer parte das demandas de família dá-se ao fato de que o dever de assistência e convivência familiar passou a ser encarados como um direito dos filhos, no sentido de oportunizar o seu desenvolvimento sadio. Nesse sentido, cabe uma citação direta presente no artigo 22 do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA:

“aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.”


E no Código Civil, no art. 1634, também se destaca as responsabilidades do pai:

“Como dever atribuídos pelo poder familiar, os pais devem cuidar de seus filhos menores dando-lhes sustento – material e espiritual – para que possam se desenvolver de uma maneira sadia, e promover-lhes a educação e preparando-os para a vida, para que sejam adultos corretos e úteis à sociedade.”

Diante de tantas afirmações teóricas respeitadas e discutidas no mundo todo, é importante lembrar que o homem não nasce pai, mas sim, torna-se pai. Esse é um processo de aprendizado, que acontece a cada dia desde a descoberta da gestação ou da notícia/informação que ele é pai. Para os filhos, a figura paterna representa segurança, responsabilidade e realidade, sendo uma importante figura para seu desenvolvimento emocional. Por isso, é importante dar a esse homem, a chance de aprender e se redescobrir a cada dia, para que possa estabelecer com o filho um vínculo cheio de amor e aproveitar a paternidade da melhor maneira possível.

Desta forma, reforço o desafio aos profissionais da educação, da saúde mental, da ação social e da justiça, com a difícil tarefa de orientação e de conscientização junto às famílias, principalmente às mães que de alguma forma se sentiram prejudicadas na relação com o pai de seu filho e que evitam a aproximação deste com a criança, no sentido de expressarem a real importância da função paterna no psiquismo infantil e do seu impacto no desenvolvimento cognitivo, social e emocional de seus filhos.

Por Cristiane Richter – Psicóloga & Acupunturista do Espaço Vida Centro Terapêutico.

Referências Bibliográficas

DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 4. ed. rev. atual.  ampl., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007.
Corneau G. Pai ausente filho carente. Trad. Jahn L. São Paulo: Brasiliense, 1991.
Montogmery M. Breves comentários. In: Silveira P, Ed. Exercício da paternidade. Porto Alegre:Artes Médicas, 1998. p.113-8.
Cavalcante R. O mundo do pai: mitos, símbolos e arquétipos. São Paulo:Cultrix, 1995.
Resende VR. A paternidade e o resgate da experiência humana do homem [Resumo]. In: UNESP, Org. Anais, III Fórum de Debates em Extensão Universitária e Assuntos Comunitários. Bauru: UNESP, 1997. p.46.
Periódidos Eletrônicos em Psicologia – A importância da figura paterna para o desenvolvimento infantil (Edyleine Bellini Peroni Benczik).
Ipê Roxo Instituto – Pai: o caminho para o mundo (Constelação Familiar de Bert Hellinger).
MundoPsicologos.com – Constelação familiar: como funciona a terapia?
Instituto de Desenvolvimento do Potencial Humano – Sobre a Teoria, o Conteúdo e o Método das Constelações Familiares (Jakob Robert Schneider).