Chegando aos 50 ou 50 e poucos anos… Como viver essa fase?

ACOMPANHE A TRILOGIA de Cristiane Richter e Denise Hardt
I – Chegando aos 50 ou 50 e poucos anos… Como viver essa fase? (Novembro/2020)
II – Sexualidade sua linda, acompanhe os 50 e poucos anos (Dezembro/2020)
III – Metamorfoses corporais nos 50 e 50 e poucos anos… Vamos encarar? (Janeiro 2021)

Percebe-se que o envelhecer tem sido indesejável, no entanto é inevitável… Por isso, não seria indicado encara-lo de frente? Falar ou não falar sobre as delícias e as dificuldades dessa fase??? Encarar o envelhecimento como algo real e natural para todas as pessoas ou mergulhar numa ilusão tecnológica e cosmética de que é possível se blindar à passagem do tempo???

Ao se pensar sobre quais as razões para certas resistências ao envelhecer, percebem-se fortes influências culturais sobre a questão. A velhice e o envelhecimento situam-se em uma sociedade centrada na produção, no rendimento e no dinamismo. Na criação dessa realidade que é excludente, está um sistema político e econômico que prioriza a força jovem no mercado de trabalho, descartando aqueles considerados “velhos, antigos ou ultrapassados”. Sendo assim, quem sentirá prazer em chegar nessa fase?

Certas pessoas afirmam ter dificuldades em conviver com as modificações corporais as quais surgem aproximadamente aos 50 anos: o aparecimento de rugas, os cabelos brancos, a diminuição da elasticidade da pele, a perda dos dentes, as modificações no esqueleto que por sua vez implicam problemas musculares e encurtamento postural, os problemas de circulação, a desaceleração do metabolismo e dos impulsos nervosos que alteram os sentidos; enfim, as modificações físicas e fisiológicas do envelhecimento são reais e não apensas citações de pesquisas.

Durante minha formação em Medicina Tradicional Chinesa, tive contato com muitas leituras, vídeos e até relato de professores que fizeram suas formações em países orientais, permitindo-me constatar que para eles, o envelhecimento é compreendido em termos de aquisição de conhecimento e progresso integral, bem como os idosos são respeitados pela sabedoria que adquiriram ao longo da vida, por seus ensinamentos e a oportunidade de transmitir tudo isso aos mais jovens. As questões fisiológicas são reconhecidas como processo natural, esperado, mas conduzido com posturas e hábitos que favorecem o envelhecimento de forma sutil e saudável.
Segundo Uchôa, 2003, as diferentes concepções de velhice nada mais é do que resultados de uma construção social e temporal feita no seio de uma sociedade com valores e princípios próprios. Portanto, o envelhecimento é uma experiência heterogênea e complexa, e não é definida por simples cronologia, mas pela integração de condições físicas, funcionais, mentais, de saúde e de aspectos subjetivos. Também de condições históricas, políticas, econômicas, geográficas e culturais, produzindo diferentes representações sociais dessa velhice.

Para que se entenda melhor esse processo, observam-se os conceitos de idade, em seus diferentes aspectos.

Idade cronológica
A idade cronológica, que mensura a passagem do tempo decorrido em dias, meses e anos, desde o nascimento.

Idade biológica
A idade biológica é definida pelas modificações corporais e mentais que ocorrem ao longo do processo de desenvolvimento e caracterizam o processo de envelhecimento humano, que pode ser compreendido como um processo que se inicia antes do nascimento do indivíduo e se estende por toda a existência humana.

Idade social
A idade social é definida pela obtenção de hábitos e status social do indivíduo para o cumprimento de muitos papéis sociais ou expectativas em relação às pessoas de sua idade, em sua cultura e em seu grupo social. Um indivíduo pode ser mais velho ou mais jovem dependendo das suas performances, de como ele se comporta dentro de uma classificação esperada para sua idade em uma sociedade ou cultura particular.

Idade psicológica
Define-se a idade psicológica a partir das habilidades adaptativas dos indivíduos para se adequarem às exigências do meio. As pessoas se adaptam ao meio pelo uso de várias características psicológicas, de aprendizagem, memória, inteligência, controle emocional, estratégias de coping, etc.

Então, é ao se analisar o processo do envelhecimento e suas peculiaridades, que se compreende a relação que se estabelece entre os diferentes aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Falar deste assunto, olhar para esses aspectos e incluí-los em nosso sistema de desenvolvimento natural, favorecerá a vivência desta fase mais saudável. Inclusive, cabe salientar que aqui em nosso país a população acima de 50 anos cresce o dobro em relação às outras idades.

Mesmo que nos dias atuais, esta fase da vida referente aos “cinquentões” em diante, apresente um charme específico, caracterizado pelos grisalhos, bem como pelo “bate-papo” riquíssimo de histórias vividas, também vem associado ao surgimento de algumas doenças, pois para o próprio autor Nogueira (2003), o envelhecimento para nossa sociedade ainda está ligado à deterioração do corpo, ao declínio e à incapacidade, concretizando a visão estigmatizada e preconceituosa já referida de nossa sociedade.

Observam-se as expressões usadas para a identificação desta faixa etária e os melindres que algumas pessoas demonstram ao escutarem terceira idade, melhor idade, idosos, ancião, velho, idade maior, idade madura, etc., confirmando suas resistências.

Logo, cabe a reflexão sobre o significado de todos esses sinônimos para cada indivíduo, (mesmo que sejam proferidos de forma pejorativa e ofensiva), pois se todos se referem a uma mesma fase da vida, a qual todo o ser humano passará, o que irá diferenciar estes eufemismos serão o sentimento e a relação deste que escuta, com esse processo, confirmando a necessidade de compreender melhor esse fluxo de vida.

Na psicoterapia, usa-se com frequência as expressões “amadurecer” e “idade madura” que significam a sucessão de mudanças ocorridas com a pessoa, à conquista de papéis sociais e de comportamentos considerados próprios ao adulto mais velho. Prioriza-se reconstruir conceitos, pontos de vista, livres de julgamentos, sem disfarces, sem ideias pejorativas nem excludentes.

A psicoterapia realizada com o foco na adaptação com essa nova fase de vida, entende como uma oportunidade para se fizer algumas revisões, tais como a cerca das escolhas que foram feitas no decorrer da sua vida, se estiveram de acordo com sua própria essência ou para atender expectativas sociais/familiares? Quais questões deixaram de fazer sentido em sua maturidade? Como a consciência da finitude influencia seu modo de viver?

Existem milhares de “receitinhas” de como envelhecer de forma saudável e equilibrada… Cada pessoa pode se apropriar da que melhor lhe convém. Conclui-se que o mais importante a partir dos seus 50 anos é manter seu pensar, fazer, discutir, aprender, atividades que contribuam para o sentimento de valor pessoal, do autoconceito e da autoeficácia. 

Caso sinta a necessidade de ajuda para superar as possíveis dificuldades de adaptação e aceitação desta fase, bem como redescobrir ou redefinir novos rumos, a psicoterapia estará a sua disposição e será um prazer para mim lhe atender.

Por Cristiane Richter, Acupunturista, Consteladora Sistêmica Familiar e Psicóloga no Espaço Vida Centro Terapêutico.

Referências Bibliográficas
BATISTONI, Samila Sathler Tavares e Carina Sayuri Namba. (2013). Idade subjetiva e suas relações com o envelhecimento bem-sucedido. Tese de Mestrado em Gerontologia. UNICAMP, São Paulo/SP.
NOGUEIRA, Fernanda Nícia Nunes. Do indesejável ao inevitável: a experiência vivida do estigma de envelhecer na contemporaneidade. Universidade de Fortaleza – UNIFOR.
PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., & FELDMAN, R. D. (2006). Desenvolvimento humano. Porto Alegre/RS: Artmed.
SCHNEIDER, Rodolfo Herberto e Tatiana Quarti Irigaray. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. São Paulo/SP, 2009.
UCHÔA, E. (2003)Contribuições da antropologia para uma abordagem das questões relativas à saúde do idoso. Cadernos de Saúde Pública, 9(3), 849-853. SciELO (Scientific Eletronic Library OnLine) 
ZIMERMAN, G. I. (2000). Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto Alegre/RS: ArtMed.